Montar uma carteira de investimentos é uma decisão, mas mantê-la é um processo cheio de nuances. Talvez você não saiba, mas uma carteira muda de perfil sozinha, mesmo que você não faça nada. E a maior parte das dúvidas sobre "ajustar a carteira de investimentos" aparece exatamente no pior momento para tomar esse tipo de decisão: depois de uma queda.
A seguir, entenda o que justifica um ajuste e como fazer sem pagar caro por isso.
A sua carteira de investimentos muda sozinha
Imagine que você distribuiu o seu dinheiro deixando 70% em renda fixa e 30% em renda variável. Após um ano considerado bom para a bolsa de valores, sem você comprar ou vender nada, a renda variável pode ter virado 35% da carteira.
Você não tomou nenhuma decisão, mas está correndo mais risco do que decidiu correr. Ou seja, ao longo do tempo, a carteira naturalmente se afasta das proporções que você escolheu se você não fizer nada.
O contrário também acontece. Um ano ruim para a bolsa reduz a fatia de renda variável, e você passa a correr menos risco do que o seu prazo permitiria, o que também tem custo, só que invisível.
Ajustar a carteira, na maior parte das vezes, é simplesmente voltar para as proporções que você já havia definido.
Por que mexer na carteira de investimentos? Conheça três motivos
Antes de mexer na sua carteira de investimentos, vale saber em qual dos três casos você se encaixa.
1. Voltar para o que você já tinha decidido
A bolsa subiu, a porcentagem que você tinha alocado na bolsa inicialmente cresceu, e você compra outras classes de ativos ou vende um pouco dela até voltar às proporções originais. Isso se chama rebalanceamento. Neste caso, você não mudou de ideia sobre nada: apenas cumpriu o que já estava combinado.
2. Mudar o que você tinha decidido
Você vai usar o dinheiro em dois anos, e não mais em 10. Seu filho nasceu ou sua renda ficou instável? Aqui faz sentido mexer nas proporções, porque a sua situação mudou.
3. Corrigir um problema na carteira
Você percebe que tem cinco produtos que na prática são a mesma coisa, ou dinheiro demais em um único banco. É um conserto pontual, feito uma vez.
Recapitulando: o primeiro ponto cumpre o plano, o segundo justifica mudá-lo e o terceiro corrige uma falha.
Mas quando ajustar a carteira de investimentos?
Antes de responder isso, tem uma pergunta que vem primeiro: ajustar em relação a quê? Para saber se a sua carteira saiu do lugar, você precisa ter definido antes qual era esse lugar.
Se você nunca traçou quanto quer ter em cada tipo de investimento, esse é o primeiro passo, e ele não é um ajuste, é a montagem. Uma carteira recomendada, um fundo que já distribui isso por você, ou uma divisão que você mesmo fez pensando no seu objetivo e no seu prazo. O importante é existir uma.
Com isso definido, duas regras simples cobrem a maior parte dos casos, e elas funcionam bem juntas.
Marque uma ou duas datas no ano
Aqui vale uma inversão do que parece intuitivo: para a maior parte das pessoas, olhar menos é melhor. Conferir a carteira toda semana não melhora o resultado e aumenta a chance de você mexer em uma oscilação que não pedia nada. Escolha uma ou duas datas no ano para revisar e esqueça o resto do tempo.
Decida quanto de desvio você aceita
Nem todo desvio merece ação. Digamos que você decidiu ter 30% em renda variável. Se ela foi para 32%, deixe quieto. Se passou de 35%, aí vale voltar para 30%. Essa margem de cinco pontos é uma referência comum e serve para você não ficar corrigindo cada centavo fora do lugar.
Para tipos de investimento com fatia pequena na carteira, pense em proporção e não em pontos.
As duas estratégias se combinam, a data marcada evita que você esqueça a carteira enquanto a margem evita que você mexa demais. Juntas, elas resolvem o problema principal: a decisão de agir passa a vir de uma regra, e não de como você está se sentindo naquele dia.
Quando não ajustar a carteira de investimentos?
A maior parte dos ajustes que destroem resultado acontece por um dos motivos abaixo.
Quando há queda
Queda de mercado não é informação nova sobre a sua carteira. Se a alocação estava adequada ao seu prazo antes da queda, ela continua adequada depois. Vender após uma queda garante que aquela oscilação seja prejuízo permanente.
No momento em que sai alguma notícia
O preço já reagiu à notícia antes que você pudesse lê-la. Ajustar depois disso é chegar atrasado a uma oscilação que já aconteceu.
Porque algum investimento rendeu muito nos últimos meses
Rentabilidade passada recente é um dos piores critérios de escolha que existem, e é o mais usado. Perseguir o que subiu costuma significar comprar caro.
Porque alguém que você conhece ganhou mais
A carteira de outra pessoa tem outro objetivo, outro prazo e outra capacidade de risco. Comparar resultado sem comparar contexto não é o caminho ideal.
Porque faz tempo que você não mexe
Não mexer é uma decisão que, muitas vezes, é a correta. Uma carteira parada não significa necessariamente uma carteira abandonada. Se nada mudou na sua vida, o tempo passado desde o último ajuste não é motivo para mexer.
Como ajustar a carteira de investimentos sem pagar caro por isso?
Existem duas formas de corrigir as proporções:
1. Usar o dinheiro novo
Em vez de vender o que subiu, direcione o próximo aporte para as classes que ficaram abaixo do alvo.
O motivo é fiscal e é simples: aportar não gera imposto, vender pode gerar. Se você investe com alguma regularidade, já tem uma ferramenta de rebalanceamento gratuita à disposição. Basta escolher onde colocar o dinheiro novo em vez de dividi-lo sempre igual.
2. Vender e comprar novamente
Às vezes não tem como evitar, principalmente quando o desvio é grande e o aporte é pequeno em relação à carteira. Nesse caso, vale saber o que a venda custa:
- Imposto sobre o ganho: Em muitos ativos, vender tem o imposto sobre o rendimento acumulado. Além disso, ao reaplicar, a contagem da tabela regressiva, presente em alguns ativos, começa de novo. Ou seja, você volta para uma alíquota mais alta;
- Preço de mercado antes do vencimento: Títulos prefixados e atrelados à inflação, como os do Tesouro Direto, oscilam de preço. Vender antes do vencimento significa aceitar o preço do dia – que pode ser menor do que você receberia levando o título até o final;
- Isenção que você pode perder: Pessoas físicas têm isenção de imposto de renda em vendas de ações até R$ 20 mil por mês. Uma venda grande para rebalancear pode estourar esse limite e tornar tributável o que seria isento. Mas lembre-se: essa isenção não existe para ETFs e fundos imobiliários;
- Custos de transação e prazos: Corretagem, diferença entre preço de compra e venda no mercado secundário de renda fixa, e prazos de resgate de fundos – que podem levar dias.
A conclusão é prática: em muitos casos, o custo de ajustar é maior do que o custo de ficar levemente desalinhado.
Entenda aqui como diversificar seus investimentos: Diversificação de investimentos: 5 dicas para começar
Perfil de investidor: o que muda e o que não muda
O seu perfil de investidor pode mudar ao longo do tempo, e a renovação desse questionário acontece a cada 24 meses. Mas, além disso, vale separar dois pontos que costumam ser tratados como apenas um:
O quanto você pode arriscar
Depende do seu prazo, de quão estável é a sua renda, do quanto você já tem guardado e do quanto você depende desse dinheiro. As mudanças podem acontecer devagar e por acontecimentos concretos da sua vida.
O quanto você aguenta arriscar
É como você se sente em relação ao risco, e isso oscila com o extrato: depois de um período de alta quase todo mundo se sente mais arrojado. Já após uma queda, a tendência é se sentir mais conservador.
O problema de refazer o questionário sem separar os dois é que o segundo tende a mandar na decisão. Aí a pessoa aumenta o risco depois que o mercado subiu e reduz depois que caiu, que é, na verdade, a sequência mais cara.
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Ajustar a carteira é seguir uma regra e não ter uma opinião
A maior parte das pessoas mexe na carteira de investimentos quando está desconfortável, e não quando ela saiu do alvo. São coisas diferentes e a primeira costuma custar caro.
Um bom processo de ajuste faz o oposto: define antes o que vai disparar a mudança, aceita pequenos desvios em vez de corrigir tudo, prefere o dinheiro novo à venda, e enxerga a queda de mercado não como motivo para abandonar a estratégia, mas como o momento em que a própria regra manda comprar a classe que ficou abaixo do alvo.
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