Se você começou a investir recentemente, provavelmente já se deparou com uma sopa de letrinhas: CDI pra cá, RDB pra lá, renda fixa ou variável, fundo imobiliário e ações preferenciais. Antes de entender cada uma delas, vale entender o conceito que organiza todas: a carteira de investimentos.
Uma carteira de investimentos é um conjunto de ativos que pertence a um investidor.
Ela também é chamada de portfólio. O ponto central é que o que determina o seu resultado não é cada aplicação isolada, e sim como elas se combinam, em que proporção, e por quanto tempo você as mantém.
Saber como montar uma carteira de investimentos costuma ser um assunto recorrente no mercado financeiro. Neste texto você vai entender por que juntar investimentos diferentes funciona, quais são os blocos que compõem uma carteira e um caminho prático para montar e manter a sua.
Por que juntar vários investimentos funciona
A explicação mais comum para diversificar é "não coloque todos os ovos na mesma cesta". Ela está certa, mas não explica o mecanismo.
Se você e a sua família dependem de dois salários, mas os dois vêm do mesmo setor, uma crise nesse setor atinge as duas fontes ao mesmo tempo. Você tem duas fontes de renda, mas não tem duas fontes independentes.
Essa é a lógica da carteira de investimentos. Nela você divide e diversifica o seu dinheiro entre diferentes ativos e, com isso, corre menos riscos, já que ele se encontra em mais de uma aplicação. O ganho não vem de ter muitos ativos, vem de ter ativos que reagem de formas diferentes ao mesmo cenário. Se tudo na sua carteira sobe e cai junto, na prática você tem um investimento só, com nomes diferentes. Montar uma carteira de investimentos diversificada também é uma forma de proteger seu dinheiro.
Os cinco pontos que definem uma carteira bem construída
Existe uma tendência natural de avaliar investimento por uma única régua: quanto rendeu. Só que uma carteira precisa resolver cinco coisas ao mesmo tempo, e um resultado bom em uma delas pode estar escondendo um problema em outra.
1. Diversificação
Não é o número de ativos que você tem. É o quanto a distribuição do seu dinheiro entre as classes se aproxima de uma distribuição adequada ao seu objetivo e ao seu prazo.
Isso muda a pergunta a ser feita. Não é "quantos investimentos eu tenho", é "que percentual do meu dinheiro está em cada tipo de investimento, e faz sentido para o que eu quero". 10 CDBs atrelados ao CDI, ainda que de bancos diferentes, são 10 ativos e uma única classe (renda fixa pós-fixada). Você parecia diversificado, mas, na verdade, estava concentrado.
2. Liquidez
É a parte do seu dinheiro que pode ser transformada em dinheiro rápido, tipicamente no mesmo dia ou no dia seguinte, sem risco relevante de estar valendo menos justamente quando você precisar. Essa é a chamada liquidez diária.
Aqui existe um ponto um pouco contraditório: liquidez insuficiente é um problema, mas liquidez em excesso também é. Se uma parte grande da sua carteira fica parada em aplicações de altíssima liquidez e baixo retorno, você está pagando um preço permanente por uma segurança que já estava resolvida com muito menos. Liquidez é para cobrir imprevistos e objetivos de curto prazo, não para ser o destino do dinheiro que tem prazo longo.
3. Retorno
O retorno esperado da carteira depende de como o dinheiro está distribuído entre as classes, muito mais do que da escolha de um produto específico dentro de cada classe.
Isso é importante porque a maior parte da energia do investidor iniciante vai para a segunda decisão (qual CDB, qual fundo), quando a primeira (quanto em cada classe) é a que carrega mais peso no resultado.
4. Eficiência
Aqui entram custo e imposto, e é a dimensão mais esquecida.
É a única em que o ganho não depende de acertar nenhum cenário. Dois produtos com rentabilidade bruta parecida podem entregar resultados bem diferentes depois de taxa de administração e imposto de renda. Reduzir custo e imposto é um ganho que você captura independentemente do que o mercado fizer.
5. Proteção
É o conjunto de riscos que você está correndo, e vale separar em três:
- Risco de crédito: a chance de quem emitiu o título não pagar. Parte desses investimentos tem a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que cobre depósitos bancários como CDB, RDB, LCI, LCA e poupança. Outra parte não tem garantia nenhuma: é o caso de CRIs, CRAs, debêntures e fundos de crédito privado, em que você depende inteiramente da capacidade de pagamento do emissor. Para esses, o rating é um apoio importante para entender o risco que você está correndo;
- Risco de mercado: o quanto a sua carteira oscila. Uma carteira que oscila muito mais do que você planejou é um problema mesmo que esteja rendendo bem, porque aumenta a chance de você desistir no meio;
- Risco de concentração em um emissor: entre os investimentos cobertos pelo FGC, a garantia vale até R$ 250 mil por CPF por instituição, com um teto de R$ 1 milhão a cada quatro anos. Vale saber que o limite vale por conglomerado financeiro, e não por marca: dois bancos do mesmo grupo compartilham o mesmo limite. Manter mais do que o coberto em um único emissor é assumir risco de crédito sem ser remunerado por isso.
Uma carteira saudável é aquela que está razoável nesses cinco pontos, e não excelente em apenas um.
Quais as classes de ativo existentes?
Vale conhecer as classes por nome, porque é assim que elas aparecem na maior parte das plataformas.
Renda fixa pós-fixada
Acompanha uma taxa de referência, normalmente o CDI ou a Selic. É a classe com comportamento mais estável no dia a dia. Aqui entram CDBs, RDBs, LCIs, LCAs, fundos de renda fixa e o Tesouro Selic.
Renda fixa atrelada à inflação
Paga a variação de um índice de preços mais uma taxa. Protege o poder de compra no longo prazo, mas oscila de preço no caminho. Exemplos: Tesouro IPCA+, CDBs, LCIs, LCAs atrelados à inflação e fundos que investem nesses títulos de renda fixa.
Renda fixa prefixada
A taxa é definida no momento da aplicação. Você sabe exatamente quanto vai receber se levar até o vencimento, e o preço oscila até lá. Exemplos: Tesouro Prefixado, CDBs prefixados.
Multimercado
Fundos em que o gestor tem liberdade para combinar diferentes mercados e estratégias. O resultado depende das decisões do gestor.
Imobiliário
Fundos imobiliários (FIIs), que investem em imóveis ou em títulos ligados ao setor e costumam distribuir rendimentos periodicamente.
Ações
Compra de participação em empresas, diretamente ou via fundos e ETFs.
Internacional
Exposição a mercados e moedas fora do Brasil, via BDRs, ETFs ou fundos.
Mas vale um destaque: uma carteira totalmente brasileira, mesmo bem distribuída entre várias classes, ainda é uma aposta concentrada em uma moeda, uma curva de juros e uma economia. Essa é uma das diversificações mais relevantes disponíveis para o investidor brasileiro e também uma das mais esquecidas.
Ouro e criptoativos
Classes com comportamento próprio, que reagem a fatores diferentes do resto da carteira. O acesso normalmente acontece via ETFs e fundos de investimento, e no caso dos criptoativos também pela compra direta. Costumam entrar em proporções pequenas e não são adequadas a todos os perfis.
Como montar a sua carteira de investimentos?
O caminho a seguir cobre duas frentes: a reserva de emergência, que vem antes de qualquer carteira, e a carteira de longo prazo, voltada à construção de patrimônio. Serve tanto para quem está começando quanto para quem já investe e quer reorganizar.
1. Monte a reserva de emergência antes de mais nada
Isso não é uma etapa da carteira, é a condição para ela existir.
Sem uma reserva de emergência, qualquer imprevisto obriga você a resgatar um investimento de longo prazo no pior momento possível, e é exatamente isso que destrói resultado ao longo do tempo. A reserva costuma ser calculada em meses de custo de vida e precisa ficar em aplicações de liquidez diária e baixa oscilação.
2. Defina o objetivo e, principalmente, o prazo
O prazo é a variável mais importante e também a mais ignorada.
O dinheiro que você vai usar em 12 meses e o dinheiro que você vai usar em 20 anos não devem estar na mesma carteira. Um prazo mais curto pede previsibilidade e liquidez. Já um prazo mais longo permite conviver com oscilação em troca de mais potencial de retorno.
Se você tem objetivos diferentes, considere tratá-los separadamente. É mais simples decidir o que fazer com "a viagem do ano que vem" e com "a aposentadoria" do que decidir o que fazer com uma única quantia de dinheiro.
3. Entenda quanto risco você suporta
Existem duas perguntas diferentes aqui, e vale responder as duas.
A primeira é: quanto risco você pode correr? Isso depende do prazo, da estabilidade da sua renda e de quanto você já tem reservado.
A segunda é: quanto risco você consegue correr sem mudar de decisão no meio do caminho? Essa é mais difícil de responder, porque só se descobre de verdade quando o mercado cai.
As duas não são a mesma coisa, e a segunda costuma ser a que realmente limita a sua carteira.
4. Use o perfil de investidor como filtro
O perfil de investidor (conservador, moderado ou arrojado) indica quais produtos são adequados para você. Responder o questionário é obrigatório, mas tratar isso como burocracia custa caro.
O perfil define o que pode ser recomendado para você. Se ele está desatualizado, tudo o que vem depois pode ser influenciado: quem respondeu há anos, com outra renda e outro prazo, recebe hoje uma carteira montada a partir de um cenário antigo. Ou seja, mais conservadora do que o seu momento atual ou mais arriscada do que você consegue carregar.
A renovação acontece a cada 24 meses, e vale refazer antes disso, caso algo relevante aconteça na sua vida, como uma promoção no trabalho. E um cuidado importante: atualize o perfil quando a sua vida mudar, não quando o mercado mudar. Se sentir mais arrojado depois de uma alta e mais conservador depois de uma queda é natural, mas seguir essa sensação tende a aumentar risco no topo e reduzir no fundo.
E lembre-se: o perfil indica o que é adequado, mas as proporções da sua carteira continuam vindo do seu objetivo e do seu prazo.
Conheça aqui o seu perfil de investidor
5. Escolha as proporções antes de escolher os produtos
Esta é a inversão mais útil deste texto. A pergunta "quanto em cada classe" vem antes de "qual produto dentro da classe", porque a primeira é a que mais influencia o seu resultado.
Na prática: primeiro você define, por exemplo, que uma parte vai para renda fixa pós-fixada, uma parte para inflação e uma parte para renda variável. Só depois você escolhe qual CDB, qual fundo e qual ETF.
6. Observe o custo e o imposto antes de fechar a escolha
Alguns pontos que valem sua atenção:
- Renda fixa tributada segue a tabela regressiva de Imposto de Renda, quanto mais tempo você mantém o investimento, menor a alíquota;
- Alguns produtos são isentos de IR para pessoa física, como LCI, LCA, e o rendimento distribuído por fundos imobiliários;
- Fundos costumam cobrar taxa de administração, e alguns têm recolhimento antecipado de imposto, conhecido como come-cotas;
- Produtos com rentabilidade bruta parecida podem entregar resultados bem diferentes depois de custo e imposto.
Como manter a carteira de investimentos?
Faça aportes recorrentes
Investir todo mês, valores parecidos, resolve o problema de tentar adivinhar o melhor momento de entrar, que é uma disputa que quase ninguém ganha de forma consistente.
Faça um rebalanceamento
Se você montou uma carteira com determinadas proporções e uma das classes sobe muito, um tempo depois as proporções mudam sozinhas. O risco da sua carteira pode ter mudado sem você ter feito nada.
Rebalancear é voltar para as proporções que você escolheu. Pode ser em uma frequência definida, como uma vez por ano, ou sempre que a diferença passar de um limite que você estabeleceu.
Formas mais baratas de rebalancear
Existem duas maneiras de corrigir as proporções. A primeira é vender o que passou do peso e comprar o que ficou abaixo. A segunda é direcionar o próximo aporte para as classes que estão abaixo do peso, sem vender nada.
A última costuma ser melhor e o motivo é fiscal: vender pode gerar imposto sobre o ganho, enquanto aportar não gera nada. Se você investe todo mês, na prática, você tem uma ferramenta de rebalanceamento gratuita à disposição. Basta escolher onde colocar a nova quantia em vez de dividi-lo igualmente.
O que fazer quando a sua carteira de investimentos cair?
Boa parte da diferença entre o que um investimento rende e o que o investidor, de fato ganha, não vem da escolha do produto, mas, sim, do comportamento: resgatar na queda, aportar na alta e trocar de produto por um que tenha rendido mais no mês passado.
Duas coisas podem ajudar.
Primeiro, entender que oscilação não é o mesmo que perda. Uma carteira que cai 5% e depois recupera, não gerou prejuízo para quem manteve o investimento. Ela gerou prejuízo para quem vendeu no meio do caminho.
Segundo, decidir antes o que fazer depois. Se você define a sua regra de aporte e de rebalanceamento enquanto está calmo, você não precisa tomar essa decisão quando a movimentação do mercado te deixar ansioso.
É por isso que uma carteira que você consegue manter costuma entregar mais do que uma carteira teoricamente melhor que você abandona na primeira queda.
Investir bem vai além de escolher o CDB com maior taxa ou fundos que renderam bem nos últimos 12 meses. É definir para que serve o seu dinheiro, distribuir com critério, pagar o mínimo possível de custo e imposto, e não virar a estratégia de cabeça para baixo só porque o mercado oscilou.
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